sexta-feira, maio 22, 2020

O top-5 dos meus concertos

Dei por mim a pensar, agora mesmo, quais os concertos que mais me marcaram. Comecei por escolher três, mas logo saltei para os cinco. As datas não serão exatas, mas cá vai a lista

The Cure - Estádio de Alvalade - 1989
Tinham acabado de lançar o álbum Disintegration e eu vivia uma primeira (ou segunda) paixão. Fui com o meu amigo Nuno Ricardo e, putos anjinhos, saímos antes de um dos encores porque achámos que tinha acabado. O melhor álbum da minha vida, no concerto que durante mais tempo me marcou. E ainda tenho saudades dele...

The Pogues - Coliseu dos Recreios - 1988 (?)
Fui com a Catarina Serpa, a Inês e um colega - talvez o Marcos?. Andava na Escola secundária e não conhecia bem a coisa. Fui por causa da Inês, sobretudo, e saí de lá esmagado por um concerto em que o Shane McGowan perdeu a aliança de casamento e andou de joelhos a gritar ao microfone "my ring, I lost my ring...".
No fim, subimos a pé a calçada da Glória para levar a Catarina a seu pai, que, estando a trabalhar, a levaria para casa de seguida.

Sitiados no pavilhão dos Salesianos, do Estoril (1990?, 1991?, 1989?)
Andava com o Marcos de escola secundária em escola secundária a ver os Sitiados. Tinha umas cassetes pirata e delirava com o João Aguardela (quem nunca?). Neste dia devem os Sitiados ter dado o grande concerto da fase pré-fama. Foi notável. Antes deles tocou uma banda qualquer que gritava "eu não tenho frio, porque uso uma TERMO-TE-BEEEE). Foram corridos com tomates e copos de cerveja. Os sitiados foram geniais como sempre e eu acabei por guardar na memória uma miúda que estava na organização da coisa e dançava sozinha, como nunca esquecerei. A minha querida Marta, que amanhã faz anos. Nunca falei com ela, mas conheci-a em 1992, quando fui padrinho dela na faculdade e falámos de gostos musicais. Ainda hoje é gente do fundo do meu coração...

The Cure - Pavilhão Atlântico (2008)
Entre o que bebi e fumei, recordo um concerto de olhos fechados (eu, não o concerto) em que senti como nunca tudo o que Robert Smith e companhia me transmitiram. Foi único e inimitável. Ainda voltei a vê-los no Alive, mas por este ter sido tão especial, baldei-me a outro que deram entretanto - este seria inigualável. Fui com o Alexandre, a Paula, o Erich e a Mónica. Incrível... Mais ainda numa altura de profunda transformação na minha vida.

Arcade Fire - Campo Pequeno (2018)
Felizmente, com a Susana não me faltam recordações maravilhosas, mas a nível de concertos (e deixando de parte tantos, como o de Franz Ferdinand também neste local) fecho o Top-5 com o inacreditável concerto dos não menos inacreditáveis Arcade Fire. Ringue de boxe no meio do pavilhão, concerto a 360 graus, e uma festa que ainda hoje tento emular quando oiço a versão do concerto de Paris, que tive a felicidade de apanhar no youtube e gravar para um ficheiro MP3. No fim, nós a sairmos e eles a continuarem o Wake Up na rua, entre os fãs...



terça-feira, maio 12, 2020

covid-19 (dia 59 - 11/05) - Olhos

Ontem fui pela primeira vez a um supermercado daqueles grandes, mesmo grandes.

Mais. Fui a um supermercado quando já é obrigatório andar-se de máscara para entrar em lojas, mesmo que seja nos cabeleireiros - uma amiga hoje foi ao cabeleireiro de máscara e entre acertar patilhas e o camandro lá lhe cortaram um elástico da máscara.

É um novo Mundo e ao fim de (quase) 47 anos apercebo-me de que talvez sempre tenha olhado da forma errada para as pessoas. Os olhos, senhores, os olhos... De repente não há gente feia. Nem nova ou velha. Há gente de máscara, com olhos bonitos ou com olhos que não se deixam ver. 

Na rua, quase todos andam de máscara, a tapar o rosto (tirando os que com ela tapam apenas a garganta) e esta nova realidade ainda me baralha. Na verdade, e pensando bem em tudo o que estamos a passar com o novo coronavírus, porque  motivo não devemos andar sempre (mesmo sempre) de máscara? Afinal, sabemos lá nós quando aparece (e onde) um novo vírus qualquer...

Hoje dei por mim a pensar que talvez fosse bom voltar a trabalhar na redação do jornal. Talvez... Acho que na verdade o que quero é alguma segurança. Sentir que o pior passou e que sobrevivemos (por um lado) e que os nossos empregos também (por outro). Mas continuo a dizer que me dou bastante bem com esta coisa de trabalhar em casa.

Ando cansado, o que é natural. Nem tanto pelo esforço que faço, mas pela falta de exercício físico. Acordo todos os dias com os músculos a doer. E preocupado. Porque depois de perder 2 quilos (até aos 76 kgs) nas primeiras duas semanas de confinamento, estou agora com 79,5 kg. Para quem já foi obeso mórbido, acreditem, a ideia de aumentar um quilo é um susto. Se chegar aos 81 obrigo-me na hora a passar fome durante uma semana...

"E se estão a engordar-nos para nos depois comerem?" perguntava com graça um amigo há não sei quantos dias.

O número de casos de Covid-19 em Portugal (quase não cresceu) menos de 1 por cento de ontem para hoje. Estamos naquela fase em que ninguém sabe o que vai acontecer com o desconfinamento. E, ao mesmo tempo, todos a querermos voltar a ir a cinemas, restaurantes, etc. Por causa disso mesmo - e porque eu nisto sou meio medricas e prefiro esperar para ver como corre a coisa antes de dar o peito aos vírus - ontem, na tal ida ao super-super mercado comprei sushi para comer em casa. 

E, mais de dois meses depois, soube-me pela vida...

Já hoje fiz arroz de polvo, para compensar a mais nova pelos seus desejos. A ideia de comer o molusco agradou à petiz, que deu pulos e celebrou durante dois dias - porque a informei de véspera. Ao provar, no entanto, matou-me: não goto deste arroz. As cozinheiras da escola fazem melhor (em abono da verdade só o disse depois de rapar todo o polvo do prato, deixando apenas o arroz).

Sobre isto, noto grande diferença desta miúda para mim e para a mãe: sempre guardei o melhor para o fim (o creme da bola de berlim, a gema do ovo, etc), já ela come primeiro aquilo de que gosta, e deixa para o fim o que tolera (ou não).

sábado, maio 09, 2020

covid-19 (dia 57 - 9/05) - Farto, pela primeira vez...

Como é que se explica isto? Chego ao fim do dia farto. Não é que eu esteja farto de trabalhar em casa. Simplesmente, o trabalho feito de casa chateia mais. E chateia mais quando tens vários colegas em lay-off e entre lay-offs e folgas dás por ti a ser responsável pelo dobro das coisas que normalmente tens para tratar.

A mim o que mais me chateia é deixar pessoas à espera de que eu lhes distribua trabalho. Sinto-me incompetente, mesmo que nao esteja a sê-lo, e a desperdiçar o tempo dos outros.

A verdade é que mais uma vez, são 22.30 e tudo o que tinha para assegurar hoje está assegurado. Ou seja, eu mereço que me continuem a pedir as missões (quase) impossíveis.

Hoje voltámos a juntar os dois avôs ao almoço cá em casa. Frango assado consegue ser um belo pitéu nestes momentos e hoje até houve leite creme feito ontem à noite. Na verdade, cada vez mais acho que vivo para estes momentos em família.

Ontem, eu e a SS começámos a ver o The Leftovers na HBO. Foram 68 minutos de primeiro episódio, e nós andamos fãs dos episódios de 20 minutos. Que vida é esta, em que de repente 68 minutos é tempo de que não se dispõe, mais ainda quando se está fechado em casa há 57 dias?

sexta-feira, maio 08, 2020

One Hundred Years

"It doesn't matter if we all die"


Assim começa a canção One Hundred Years, dos The Cure.

Por estranho que possa parecer o desprendimento, a verdade é que só há uma coisa verdadeiramente triste na morte e essa é a saudade que fica em quem fica...



quinta-feira, maio 07, 2020

covid-19 (dia 55 - 7/05) - Vacinas, barbeiro...

Ontem (acho que foi ontem e se não foi ontem é como se tivesse sido ontem) sentei-me pela primeira vez descontraído em frente à TV para ver uma série.

Escolhi o After Life, do Ricky Gervais (no Netflix), e a hora errada. A coisa até estava a correr bem (se é que algo corre bem no After Life), mas o mais velho cá de casa entrou aos gritos pela sala: "Aula de ginástica".

Uma aula síncrona - das melhores coisas que a escola fez neste período - a cortar-me o único momento de descontração que me permiti nestes 55 dias.

Nada de grave. Vi depois mais uns quantos, mas ando cá a matutar que se calhar eu e a minha querida mulher se calhar pensámos mal quando decidimos ter uma só TV em casa, e na sala. Isto leva a que não tenhamos um local para nós. Quando os miúdos querem jogar PlayStation lá ficamos sem sala. E andamos pela casa sem pouso a que possamos chamar nossos.

Fosse o tempo outro, até comprava uma TV para meter no escritório e passava para lá a PlayStation. E livrava-me dos putos sem ter de dá-los para adopção.

Ontem fui com a mais nova ao centro de saúde. Ela, de máscara, armada em corajosa, desatou a chorar ainda antes da primeira picadela (foram duas). 

Hoje fiz de barbeiro. Ataquei o cabelo do meu pai com a máquina que felizmente comprei há um ano. O resultado não é famoso - claro que não - mas ele vai mesmo ficar fechado em casa mais um mês... é indiferente o lado estético.

De manhão, lancei-me com violência a lavar as paredes do quarto da miudagem. Uma trabalheira, mas aproveitei para lavar as janelas também e a mãe pegou na coisa e acabou a limpar e arrumar o resto. Um brinco. Estamos exaustos, mas valeu a pena.

Ao quarto dia de desconfinamento, sente-se na rua um certo à vontade. A maioria das pessoas anda sem máscara. Entre as restantes, a maioria ainda com a máscara ao pescoço; apenas uma minoria se desloca com a máscara corretamente colocada.

domingo, maio 03, 2020

covid-19 (dia 51 - 3/05) - Dia da mãe

Dia da mãe. Cá em casa assinalado com dois postais. Um escrito e desenhado por ele; outro pré-comprado (de flores) a que ela colou autocolantes bonitos e aos quais se juntou uma frase que lhe saquei. Dia da mãe. Saudades da Zé. E da Manuela que nunca conheci. Um vazio grande na nossa vida. E a certeza de que nestes tempos tão incertos, os meus filhos estão bem servidos de uma. Que os adora. Que os ama. Que os atura. Que não os atura. Que é tão humana quanto uma mãe pode ser. Que eu amo, claro. E amarei. Não consegui algo mais que esses desenhos, esses postais. E, na verdade, é preciso algo mais? São 51 dias disto e hoje a mais nova perguntou: quando é que o corona acaba. Respondemos-lhe: se tudo correr muito bem (não temos certezas disso, mas esperamos que sim) daqui a 30 ó-ós voltas à escola. Já passou mais de metade e mesmo sendo muito tempo, pode ser que esteja para acabar. Entretanto a Espanha vai alargar por mais 15 dias o Estado de Emergência. Enquanto nós continuamos cheios de Fé.

sexta-feira, maio 01, 2020

covid-19 (dia 49 - 1/05) - "Vão sem mim que eu vou lá ter"

Amanhã são já 50 dias de quarentena. Caramba!

Já quase nem me lembro dos primeiros tempos, aqueles em que temi não ter comida para os miúdos e perdi 2 kgs numa semana.

Não esqueço a discussão que tive com um amigo que recusava teletrabalho aos seus funcionários, nem o pânico que senti de estar infetado, porque foram situações em que me vi a perder o controlo das minhas emoções - cheguei mesmo a pensar de forma consciente que estava em risco de ter um ataque cardíaco, tais os nervos sentidos.


Agora que já se sabe que a partir de segunda feira começa um programa de desconfinamento progressivo em Portugal, que vai ser obrigatório entrar em lojas e transportes públicos com máscaras, que dia 30 de maio (belo dia) regressa o campeonato da I Liga (se nada obrigar a adiar a coisa), começo a perceber em muita gente um nervoso miudinho para voltar à rua, para voltar ao lufa-lufa, à normalidade pré Covid-19.

E eu tenho cada vez mais certo para mim só saio obrigado e que vou tentar manter todas as rotinas que tenho agora. Ou seja, encomendas de compras online, família recatada.

Se correr mal (espero que não) continuaremos protegidos; se correr bem, então podemos começar a pensar em arriscar - afinal eu sou asmático e o meu pai tem tudo o que é preciso para o vírus atacar forte. Além disso, não acredito em nada que nenhum especialista ande a dizer sobre isto tudo. Mesmo que me incline mais para uns que para outros, a verdade é que ninguém sabe EXACTAMENTE do que está a falar.


Posto isto, confesso que só estou cansado da rotina diária. Os dias são basicamente todos iguais, sobretudo desde que começaram as aulas síncronas do mais velho e entrou em vigor o horário de estudo à distância.

Sinto que não tenho tempo para nada de nada, que venho trabalhar e às 23 horas lá ligo ao meu pai, que durante o dia não teve com quem falar. A essa hora bebo um copo de vinho, ou dois, e tento aproveitar para ainda ver uma série. Raramente conseguimos, porque acontece sempre algo que não está nos nossos planos.

Disso estou farto sim. Disso e de pensar todos os dias que se calhar daqui a uns meses o meu emprego não existe. Às vezes penso que esta pandemia vai matar muitos jornais em Portugal. Pergunto-me se acontecerá, como acontecerá, e o que poderei fazer caso aconteça.

Não tenho respostas. E entretanto mais uns quantos companheiros foram para lay-off. Às vezes isto é tudo tão cansativo que apetece desistir de trabalhar; quase nos faz desejar entrar também em lay-off para poder desligar o cérebro; mas logo me ocorre que se tal acontecesse é que o cérebro nunca mais pararia de pensar...

Uma coisa boa destes dias tem sido a oportunidade de estarmos os dois pais sempre com os miúdos. Acho que temos conseguido educá-los melhor e passar-lhes valores de uma forma consistente.

PS: A nota de humor de hoje remete-nos para há vários dias. Ao fazer o jantar deles (strogonoff) fui confrontado com o facto de não ter natas em casa. Havia só natas com queijo, da Parmalat, que usei, desconfiado... Péssima ideia. O sabor ficou intenso demais. Durante o jantar, o mais velho lá perguntou à mãe se tinha sido ela a fazer. Porquê? Porque o sabor não estava como é normal... (e como ele gosta).

quarta-feira, abril 29, 2020

A falta de vergonha do El Corte Inglés


Depois de ter feito uma encomenda na loja online do El Corte Inglés (o link é para poderem bloquear) no dia 9 de abril, com a premissa (por eles anunciada) de que chegaria a 18 - ou seja a tempo de ser o presente que o mais velho queria dar à mais nova pelo 5.º aniversário, ontem, vários dias depois de terem falhado o prazo para entrega, mandaram-me um e-mail a dizer: "tal como solicitado, anulamos um (ou vários) produtos associados ao seu pedido".

Problemazito: eu não solicitei anulação de nada e, mais grave do que isso, já por três vezes tinha telefonado para os contactos do El Corte para perguntar o que se passava.

No dia 17 disseram-me: não se preocupe, que deve chegar amanhã. Estamos a dar prioridade a tratar do assunto e nem tanto a atualizar o site.
Hoje, depois de tudo isto, continua disponível online...












No dia 18 disseram-me que não sabiam o que se passava, mas que seria contactado brevemente pela loja online para me informarem (e enviaram internamente um e-mail a explicar que era um presente para uma criança que faria anos e blá blá blá.
Nunca fui contactado, claro.

No dia 27 - e depois de três pedidos de esclarecimento terem sido olimpicamente ignoradose permanecerem até hoje sem resposta, perguntaram-me o que queria fazer (respondi que queria receber a encomenda e depressa) voltaram a garantir-me que nesse mesmo dia me telefonariam a dar esclarecimentos.

Nada de nada nada. Até ao e-mail de hoje. Após o qual telefonei, já sem paciência e aos gritos (desculpa Bárbara, a culpa não é tua, e quem devia ter ouvido era a tua chefe Carla - sim, perguntei os nomes) lá recebi um simpático telefonema do ÚNICO funcionário de serviço na loja online que me disse que a encomenda foi cancelada porque não havia stock!

Curiosamente, no site da loja online continua a ser possível encomendar. Portanto, se querem mesmo comprar uma coisa, pagá-la e, por cima disso tudo, fizerem questão de recebê-la procurem outro site.

covid-19 (dia 47 - 29/04) - fura quarentenas

Parece mentira chegar aqui e perceber que vamos em 47 dias disto.
O que já se passou e o que falta ainda passar. Já não há novidades para escrever todos os dias - pelo menos das relacionadas com a Covid-19 - ou, havendo, já vai faltando a paciência.

Como no futebol, agora todos somos epidemiologistas de bancada e "de médico e (sobretudo) de louco todos temos um pouco".

Vou lendo um pouco de tudo e já desisti de acreditar em quem quer que seja. A verdade nunca será um valor absoluto e para cada ideia haverá interpretações distintas, razões fundamentadas, sejam em erros científicos seja na falta de uma base de dados com critérios semelhantes em todo o Mundo.

A última ideia que me despertou curiosidade foi de que o medo mata mais que a Covid-19. Lá está, nunca saberemos, mas hoje foi divulgado um estudo que diz que de 1 de março até 22 de abril morreram em média (sem ser por Covid-19) mais 75 pessoas por dia do que seria expectável (o que dará quase 4 mil). Serão pessoas que não foram aos hospitais com doenças que precisavam de tratamento, que não tiveram apoio em doenças ou, até, que não tendo sido diagnosticadas com Covid-19 o possam ter tido sem saberem.

Adiante.

O Estado de Emergência parece que vai mesmo acabar dia 2 e que não será renovado. Iremos caminhar para uma reabertura (pretendem progressiva mas sem Estado de Emergência ainda não estou bem a ver como). E ao fim de 48 dias - mais de 50 sem termos o nosso núcleo familiar (6 pessoas) todo junto, sabendo que nenhum de nós está infetado decidimos matar saudades.

Trouxemos, de carro e à vez, cada um dos avôs até cá a casa, sentámo-los à mesa e após um belo frango assado cada um deles voltou a sua casa. Não mais do que a refeição em conjunto e, claro, com a janela da sala aberta para arejar o ambiente (algo que reforça a segurança anti eventuais contágios).

Não sei se o medo mata mais que a Covid, e também já ouvi e li que a solidão mata mais. Tomámos esta decisão pesando todos os factores e sabendo que os dois avôs, cada um em sua casa, fechados há 50 dias estão a dar em doidos e já começam a pensar em ir à rua fazer coisas como pagar contas (em papelarias). Entre esse risco e o de trazê-los cá a casa, pareceu-nos mais prudente isto.

Foi um tónico para todos. A mais nova, que anda sempre a querer ficar de pijama, quis vestir-se mal chegou o primeiro avô. Andavam os dois atrás deles, oh avô olha isto, oh avô, já viste aquilo? oh avô, agora na varanda tenho um atelier de pintura...

Foi uma hora, hora e meia, que soube a todos os sábados que nos devem. E foi tão pouco, ainda assim.

Foi um tónico para encarar o que vier a acontecer com um sorriso. Até porque quando voltarmos a trabalhar nos escritórios, ou os miúdos à escola, os perigos de contágio vão aumentar de novo.

Hoje o mais velho passou-se com a escola. É o dia em que o faz semanalmente. Afinal, matemática a abrir, exercícios para fazer sozinho e sem a sua querida prof para falar, deixam-no doido. A dada altura desistiu. E mandou um email à professa a dizer-lhe que estava farto, que gosta é de estar na escola e que não consegue aprender em casa.

Ela respondeu-lhe da forma mais maravilhosa que podia ter feito: a elogiar o esforço dele, que ele tinha razão, mas que continuava a ser o menino que os colegas adoram, fazendo de seguida uma lista das coisas que ele faz bem todos os dias.

Se pudesse escolher uma professora para os meus filhos, seria sempre ela.


segunda-feira, abril 27, 2020

covid-19 (dia 46 - 27/04) - Profissão: Mãe

Uma das regras que impusemos cá por casa durante os tempos de confinamento é que à hora de almoço não se liga a TV.

É talvez o único momento dos dias é que é garantido que estejamos todos juntos (entre tarefas deles, trabalho, compras, stresses vários relacionados com esta profissão de sermos pais e mães a tempo inteiro).

A ideia é simples: termos tempo para conversar.

E se por vezes ficamos a saber o que queremos e o que não queremos sobre jogos como o Fortnite, noutros momentos apanhamos verdeiras pérolas, como a que vos relato a seguir.

Filho (o mais velho) - Eu quando crescer vou ser solteiro e vou ser o primeiro homem a conseguir entrar num buraco negro. Vou ver como é do outro lado e descobrir que há outras galáxias completamente diferentes.
Filha (a mais nova) - Eu vou ser mãe.
Filho - Não podes ser só mãe. Tens de ter um trabalho.
Filha - Não não, vou ser mãe.
Filho - Não pode ser!!!! O teu marido. vai achar que tu és uma desgraçada porque não trabalhas e vai abandonar-te.

(ela pela primeira vez olha na direção dele, como que finalmente a dar importância à conversa, e com o olhar mais ofendido do mundo a mudar-lhe a expressão facial e a voz carregada de revolta, respondeu entre o grito e o vigor...)

Filha 
- O QUÊ????? O JOÃO F. NUNCA VAI ABANDONAR-ME!!!!! ELE ADORA-ME!!! ATÉ JÁ ME CONVIDOU UMA VEZ PARA ME SENTAR AO LADO DELE NA RODA!

domingo, abril 26, 2020

sábado, abril 25, 2020

covid-19 (dia 43 - 24/04) - o especialista

Estive a ouvir isto (clica na palavra isto - a que está lá atrás, não esta!!!) e fiquei a torcer para que o André Dias tenha razão. Para uns ele é louco, como o Trump. Para outros, está carregado de razão.

Não tenho estudos para mais do que isto, por isso fico-me pelo "espero que esteja certo".

Na verdade, o vírus é, como dizia o Guedes, cada vez mais "uma cena que não me assiste". Já nem acompanho os números de Portugal - acho que foi bom ter-me mentalizado de que seríamos uma segunda Itália - mas também não tenho qualquer pressa em retomar algum tipo de normalidade.

Só me custa mesmo é ver os filhos meio avariados. Ele, 9 anos, a chorar que não consegue acompanhar a escola; ela passiva-agressiva aos (agora) 5 anos.

No meio disto, tenho de destacar uma pequena maravilha: o mais velho já vai percebendo que a irmã sofre com a falta das amigas e então, vai daí, passou a encarnar uma delas nas brincadeiras. A "Pereira" anda agora cá por casa. Ele faz a voz e ela diz... "oh Pereira isto e aquilo". E eu derreto-me a cada instante. Há lá algo melhor do que ter um irmão? Mais ainda em tempo de pandemia!

sexta-feira, abril 24, 2020

segunda-feira, abril 20, 2020

Covid 19 (dia 39 - 20/04) - Aniversário

Hoje a mais nova faz cinco anos. E isso, meus amigos, sendo especial é, também, profundamente triste.

A festa com que sonhou não aconteceu nem vai acontecer tão cedo, mas lá fizemos um bolo caseiro, uma mousse de chocolate (para cumprir o desejo dela) e enchemos a mesa de bolachas (bolacha torrada, belgas, etc) a fingir que havia grande variedade de doces.

Ela, percebe-se, feliz pelos cinco anos, impôs a si própria o nada cobrar. Recebeu os presentes (dois) a meio da tarde, apenas, falou com um dos avôs e padrinho por Zoom, e com outro por telefone em alta voz, e todos, ao mesmo tempo, lhe cantámos os parabéns.

Para os pais foi um esforço brutal para fazer tudo parecer normal. Mas não foi. Nem será...

Depois, saímos de casa e fomos até cada um dos avôs levar duas fatias de bolo, e matar saudades à distância. O vírus afastou-nos do toque. Em momento algum, crianças ou avôs tiveram qualquer impulso de se tocarem, de se abraçarem. Embora a mais nova, ao sair de casa, fosse dizendo: beijinhos não podemos. Abraços sim...


 Ontem, domingo, foi a pascoela e nós finalmente provámos o borrego (aqui ao lado) e o cabrito (foto de baixo) que o meu pai fez para os seis (cada qual na sua casa) e que esteve no congelador duas semanas à espera de saltar para o forno.

Estava delicioso como sempre e, no entanto, faltou-lhe o que é mais importante na celebração: a presença de todos por cá. Sem os avôs, sem a tia maluca, sem os convidados do costume, até um bom cabrito e um ainda melhor borrego conseguem saber apenas a uma boa refeição.

O isolamento social continua a ser um massacre para muitos. Eu, que nem me queixo de estar em casa, ando apenas preocupado com a saúde mental dos mais novos (e mais velhos) que não sabem lidar com isto.

Do que vou falando com outros, são algumas as crianças a transferir o desconforto para as roupas que vestem, dizendo que estão apertadas, que isto e aquilo. E são cada vez mais os pais que já não aguentam mais uma birra por estas razões.

Que venha depressa uma vacina, um medicamento ou um meteoro que nos livre disto.

quinta-feira, abril 16, 2020

Covid-19 (dia 35 - 16/04) - Welcome to the jungle

Benvindos ao inferno, sim, porque o inferno está instalado por cá.

O regresso às aulas - não presencial - é o fim do mundo em cuecas. Computadores a rebentarem pelas costuras, dois a serem utilizados ao mesmo tempo e, sobretudo, incapacidade total para acompanharmos os dois crianços ao mesmo tempo.

Resultado, hoje dei por mim na hora de maior stresse a lidar com o facto de a mais nova chorar, o mais velho chorar, a mãe chorar e eu chorar. Os dois últimos talvez seja exagero, mas andou lá perto.

Os professores acham que falar com miúdos de 9 anos é como falar com miúdos do 9.º ano e que todos percebem os conceitos informáticos - e, mais ainda, que os captam numa vídeochamada.

O inferno, aqui, é esse. A comida vai-se fazendo, as compras idem, o apoio aos avôs também. Mas quem nos ajuda a nós? Temos de ir fazendo o esforço de manter os miúdos ativos e a estudar (e no caso da mais nova isso mudou o comportamento dela e, mais importante, o sentimento - tanto que ontem já quis telefonar aos avôs), mas a verdade é que de forma realista... este (fim de) ano (letivo) está perdido.

Amanhã tenho de ir à Auchan levantar compras e recebo outras em casa. Dois filmes em perspetiva... Está visto.

PS: O Estado de Emergência foi hoje renovado e o Primeiro Ministro falou com grande optimismo, de esperar que não volte a ser necessário. Assustador, mas ninguém sabe como sair disto...

quarta-feira, abril 15, 2020

Covid-19 (dia 33 - 14/04) - Regresso às aulas

Não tem sido fácil passar por cá. A verdade é que não tem havido muitas novidades nos nossos dias, por um lado, e, por outro, temos dado prioridade a tarefas relevantes como ver séries antes de dormir.

A verdade é que o dia de hoje ficou marcado pelo regresso dos miúdos à escola. Em casa, claro. Ela começou o dia a ver na RTP2 o zigzag, ele começou o dia a fazer o plano do dia no caderno, segundo de reunião com a professora no Teams (da Microsoft).

Os putos perdem a cabeça - apanham-se ali e desatam a escrever coisas uns aos outros, a mandar convites para videochamadas, etc... (o que teria sido a minha adolescência com isto, em vez de um ZX Spectrum com cassetes para carregar jogos?).

São uns espertalhões e acho tanta graça a isso, quanto isso me incomoda. A verdade é que o mais velho só precisou de cinco minutos de Teams para saber como aquilo funcionava tudo.

A mais nova falou com a educadora, viu meia dúzia de amigos e puxou muito os cabelos da mãe. Está um bicho. Tive grande conversa com ela, expliquei-lhe que tem de parar com as birras diárias. Pelo meio psicóloga amiga ofereceu-se para dar umas dicas...

Dos últimos dias ficaram por contar:

1. a confusão de palavras dela. "Papás, quando fizeres compra podes incomodar bolinhas (grão)" (em vez de encomendar.
2. um sonho dele, depois de noite na nossa cama, em que, a dormir, diz de forma clara. "não, nunca ponhas plástico na boca".

PS: Diz o PM que devemos programar férias em Portugal. Eu, que tenho férias marcadas para agosto, não acredito em nada disso...

domingo, abril 12, 2020

Covid-19 (dia 30 - 11/04) - Uma conversa sobre o Corona

Dia de folga. O primeiro de três. Além de ter passado o dia a trocar emails com assessores de imprensa para escrever uma notícia (que ainda não saiu) e de ter feito, por telefone, uma entrevista, o melhor acabou por ser o passeio que demos, aqui na rua, com os miúdos - eles não saíam de casa há uma semana.

Incrivelmente, portaram-se tão bem que não tocaram em nada. Talvez por estarem já habituados à realidade.

Hoje de manhã, acordaram às 8h20 para verem na TV desenhos animados da Guerra das Estrelas. Lá saltaram da cama e eu, no quarto, ouvi a conversa deles.

Ele - Temos de calçar os chinelos.
Ela - Pois é, por causa do Corona.
Ele - É quase impossível o Corona apanhar crianças. Quer dizer, pode até apanhar, mas até agora matou zero crianças. Zero!!! As crianças estão protegidas.
Ela - Pois é. E os pais.
Ele - Os pais podem apanhar o Corona, mas é mais difícil o Corona matá-los.
Ela - Pois.
Ele - Os avôs é que é pior.
Ela - Pois.

E a conversa ficou por aí. De manhã, quando fui comprar fruta, tive agradável surpresa. Havia folar de Páscoa na loja (que além de fruta tem um pequeno talho e vende pão). Comprei dois. Um para nós, outro para o sogro. O pai passa a Páscoa sem folar, porque mora num concelho diferente do nosso, embora perto, e não é permitido andar a circular entre concelhos.

Talvez seja isso que mais nos custa - a saudade dos avôs.

Ainda hoje dizia à SS que enquanto não houver mais layoffs, despedimentos, ou alguma outra coisa que me preocupe, me sinto confortável com esta nova forma de vida. A ansiedade desapareceu (acho que quando percebi que nunca iria faltar comida aos miúdos) e a única coisa que ainda me falta é conseguir mudar as rotinas. Acordar mais cedo, fazer mais vezes aulas para me mexer.

Vem aí a Páscoa. E desta vez, em vez de cabrito e borrego, feitos pelo meu pai, com a João e o Armando, com o Luís, com os avôs, seremos apenas os quatro e um frango assado. Sim, que o mais velho anda com saudades de frango assado e hoje acaba o sacrifício dele  de quaresma: prometeu durante 40 dias não comer batatas fritas - uma das coisas que mais adora - e cumpriu. Merece, por isso, um belo frango assado com batatas fritas. Merecemos todos, acho...

Hoje, mais uma vez, não fizemos o pitéu de sábado para 6. Mas enquanto dois deram saltos de alegria com o strogonoff, outros dois deliciaram-se com "arroz de grelos e ovos com farinheira do Alentejo".

Farinheira alentejana em cama de ovo mexido; com arroz de grelos à BF (para a SS)






quinta-feira, abril 09, 2020

Covid-19 (dia 28 - 09/04) - As notas dele; a tristeza dela

Fez hoje um mês que estivemos todos juntos. Todos, cá em casa, é 6 pessoas. Nós os 4, o meu sogro e o meu pai. Parece uma vida. É um mês. Vamos falando, mas claramente não chega.

Este ano não haverá cabrito e borrego maravilhosos feitos pelo meu pai, nem amigos a acompanharem-nos no domingo. Daqui a dias (não muitos) a mais nova celebrará o quinto aniversário e não terá a festa com que sonhou no último ano. 

Ela é claramente quem está a sofrer mais com o confinamento. Acaba por ser natural, pois é também quem tem mais dificuldade em compreender o que está em causa. Anda triste. Arrasada. Hoje viu um vídeo da educadora, coisa longa, a contar uma história lida de um livro. Viu com atenção, em silêncio.

Quando o vídeo terminou ela ficou calada. A mãe perguntou-lhe se gostou, e ela respondeu que sim com a cabeça.

- O que sentiste?
- Nada (e saiu do colo da mãe)
- Sentiste alegria ao ouvir a história? Sentiste saudades ao ver a educadora?
Ela, sem olhar, começou a afastar-se enquanto empurrava o carrino de bebé. E respondeu.
- Bem, quando ela disse essas últimas palavras, que sentia a falta, eu ouvi e vi que também sentia o mesmo. Por isso, tenho saudades. (e saiu disparada da sala).

Também esta noite, veio pedir-me se podia ficar com um boneco velhote, que foi meu em criança. Uma ovelha já com mais de 40 anos. Quando lhe disse que sim, alegrou-se. 

O irmão, com quem se pega todos os dias várias vezes (acho que está nos estatutos dos irmãos como obrigação...) escolheu um presente para ela e entretanto encomendámos do El Corte Inglés online.

(é um peluche do babyshark, que em tempos ele quis comprar com o dinheiro dele para lhe oferecer, nós recusámos porque ela nem sabia o que era aquilo - e ela, tempos mais tarde, viu e disse "sempre quis ter este boneco").

Ele acabou o dia feliz. Chegaram as notas da escola e ele dá-lhes muita importância - mais do que eu e a mãe. Para ele, ter boas notas é estar a fazer tudo bem, mesmo que depois, na prática, não se preocupe assim tanto em estudar. Entre Muito Bons e Bons saiu-nos bem  melhor que a encomenda, e lá foi deitar-se feliz, aliviado, depois de guardar a folha dentro do seu diário.

Não tivemos ainda coragem de dizer-lhes que hoje foi comunicada a decisão que eles não queriam ouvir: o ano letivo vai acabar sem mais aulas presenciais. Ou seja, provavelmente só em setembro (será em setembro?) vão mesmo voltar à escola (serão cinco longos meses, a menos que pelo meio haja reabertura dos ATL).

E do vírus, é isto que hoje temos para partilhar... Portugal, que vai colecionando elogios pela forma como tem gerido a crise sanitária, está a dar prioridade à saúde e a recusar regressar à normalidade a correr. Salvar vidas ou a economia? Como se decide tal coisa?

Deixo um artigo muito bom para ajudar a pensar no assunto.




Covid-19 (dia-27 08/04) - Sonhar cansa tanto

Tenho sonhado muito. Mesmo muito. É tão cansativo sonhar...

Na noite passada, sonhei que ia viajar. Era uma viagem de finalistas - ou lá o que era, porque eu não era finalista - mas havia condicionantes complicadas, como algum tipo de isolamento social.

Havia distanciamento, mas vá-se lá saber porquê, acabava a falar com outra finalista que não era finalista. De repente estávamos em minha casa, ela acabadinha de tomar banho e só com uma toalha enrolada à volta do corpo. E o meu sogro andava por lá, bem como os filhos. E eu só perguntava: a S. não disse nada sobre quando volta?

Eu estava a cozinhar. E, pelos vistos, preocupado com o paradeiro da minha mulher e a resistir aos apelos de um corpo acabado de banhar e apenas enrolado numa toalha.

No fundo, é isso que o Covid-19 me tem dado. Aproveitar o prazer de estar em família, estranhando a ausência de um de nós. Há tempos sonhei que a S. morria. Era horrível. Chorava desesperado.

Diz que dá mais tempo de vida. E ainda bem.

Parece que a pandemia pode estar prestes a entrar em curva descendente cá pelo reino de Portugal, mas que pode voltar a subir em agosto - e eu que vivo a pensar em agosto de férias no nosso spot favorito.


Hoje aproveitei para medir o mais velho numa das ombreiras da porta da despensa - quando era miúdo assim fazia em casa dos meus avós. Deu um pulo de mais de dois centímetros em cinco meses. Uma brutalidade. E já calça tanto como a mãe.

Os miúdos dão uma trabalheira. Sobretudo, desgastam. Ele é uma matraca. Uma metralhadora capaz de disparar mil palavras por minuto, sempre sobre assuntos que me interessanto tanto como as teorias dele sobre o Fortnite. Ela passou o dia em pijama porque entrou em crash com esta nova forma de (não) vida.

É aflitivo ver uma criança de (quase) cinco anos render-se à depressão. E desesperante que a reunião agendada pela escola através da plataforma Zoom tenha no próprio dia sido cancelada porque, afinal, o Zoom é uma porta de entrada a hackers.

Nos últimos dois dias editei três secções diferentes no jornal. É quase tão divertido como ter um AVC. O nosso cérebro, pelo menos, reage da mesma maneira.


terça-feira, abril 07, 2020

Covid-19 (dia-26 07/04) - finalmente, a ver séries

Nos últimos dois dias não passei por aqui. Quer dizer, passei mentalmente, mas no fim acabei por não escrever. Os dias estavam sempre iguais e acho que quis fugir às rotinas: acordar cedo, meter os miúdos a fazer coisas, aturar birras, trabalhar, ir às compras, aturar birras, impedir os míudos de fazer coisas, fazer o jantar (antes tinha feito o almoço, claro), aturar birras e discussões dos putos, deitar os míudos, impedir os miúdos de fazer coisas, obrigar os miúdos a dormir, impedir os miúdos de fazer coisas, depois disto tudo telefonar ao pai por vídeochamada, tentar prever quando acaba a comida e fazer compras, e ir dormir sem ver - mais uma vez - um episódio de uma qualquer série.

Nos últimos quatro dias tudo mudou. Vá, só uma coisa mudou: despachámos a primeira temporada do Fleabag (eram só seis episódios, calma); e ontem ainda vimos o primeiro de Breeders na HBO (uma comédia fantástica sobre a vida de um casal com dois filhos).

Cá por casa, entrámos no registo de a mais nova andar vestida como quer. A ver se não discute porque as cuecas apertam, porque as calças são justas. De manhã já não podemos perguntar-lhe o que quer de pequeno almoço - tem de ser ela a dizer, quando quiser, o que quer.

Está farta das rotinas. E nós das birras. Passou os últimos dois dias de pijama. Não com aquele que usou para dormir, mas outros que lhe apeteceu vestir. Faz de conta que são fatos de treino... Amanhã tem reunião no Zoom com os colegas de escola e a educadora. A ver se arrebita...

No trabalho avançaram lay-offs para alguns companheiros (por enquanto ainda não fui atingido). A incerteza é muita e a tristeza maior. Não pelo lay-off, que é uma medida inteligente para fazer face à quebra de receitas, mas pelo cenário que se adivinha depois de passar a pandemia (se é que a pandemia vai passar assim tão rápido).

Ontem parei os olhos na notícia de que um tigre no Zoo de Nova Iorque tinha testado positivo a Covid-19. E dei por mim a viajar na preocupação de que o vírus vá sofrendo tantas mutações que se torne invencível e capaz de arrasar a maior parte da vida no planeta.

Um dia de cada vez. É mesmo assim, agora. A ver se amanhã passo por cá. Fiquem bem, fiquem em segurança...

PS: hoje vi um estudo que prevê entre 100 e 1000 mortes na próxima semana em Portugal (ao ritmo atual seriam cerca de 500). O cenário não é bonito, prevê o Imperial College. Mas por cá andamos todos contentes, a dizer que a coisa está a correr muito bem... (esperemos que sim...)

sábado, abril 04, 2020

Covid-19 (dia 23 - 04/04) - O Euro-2016 soube melhor que o vinho

Folga. Um dia sem me sentar ao computador no quarto gelado para onde deslocámos a escravininha que foi dos meus pais e tantos anos esteve emprestada a uns tios.

Um dia difícil. Muito difícil. Creio que os miúdos não saem de casa há quase uma semana - perdemos a conta. E hoje a mais nova avariou de manhã.

Chorou das 11 h até às 14 h. Mas quando digo chorou, quero dizer esperneou, lutou, debateu-se, revoltou-se, sofreu, fez sofrer, quase fez chorar. Diria que é esgotamento puro, cansaço, frustração, quem sabe até depressão. Mas para ela era tudo simples: as calças e as cuecas incomodavam-na de morte. Nada servia. Nada de nada. Nenhuma solução agradava. "Nada vai resultar".

Acabei por vestir-lhe calças de pijama sem cuecas, e encomendámos cuecas novas (eles crescem, mesmo em confinamento) na Zippy.

Ao almoço fiz alheira para mim e para o sogro, e cada um em sua casa, comungámos de algum tipo de união.

Abri uma garrafa de vinho que tinha guardar há uns anos. Alentejano. Da Amareleja. Garrafa comemorativa do Euro-2016 que Portugal ganhou. Nisto dos vinhos não sou muito por guardar para valorizar. É beber enquanto a coisa está boa. Este, não sendo uma maravilha, melhorou ao respirar um pouco.

E agora se me dão licença, vou fazer companhia à minha querida mulher. Talvez ver mais uns episódios de Fleabag e descontrair um pouco. A ver se volto a esquecer-me do confinamento, e que na empresa onde "vivo" já começaram a chover indicações de layoff nalguns sectores - hoje passei o dia a pensar nisso: se quando tudo isto passar ainda terei um emprego; e como poderei ter de reinventar-me. (isto depois de ontem colegas terem sugeridos que deveríamos dizer ao patrão que não tem de pagar-nos os feriados de Páscoa - algo que não colheu simpatia de muita gente).

Cada coisa a seu tempo. Agora o Fleabag, que é a única coisa que depende de mim.

covid 19 (dia 22 - 03/04) fleabag

Hoje folguei, que é como quem diz trabalhei para a familia.
Loja das frutas de manhã. Três sacos. Três listas
 Três contas. Melhor método.
Ir a todas as casas. Uma correria. Só me safei às 16h.
Percebi que infetados subiram à volta de 10 por cento - entrei num registo de mera curiosidade estatística.
Joguei basquetebol no escritório e houve gargalhadas. Dos mais novos e dos mais velhos.
À hora de dormir queriam ficar na sala. Expliquei-lhes que os pais precisam de tempo para eles, que não podem estar sempre com os filhos. Que temos de falar, ler, ver TV. 
Lá foram.
E nós vimos dois episódios da série Fleabag.

Pela primeira vez, e durante 40 minutos, esqueci-me que estamos em isolamento com gente a ser dizimada por um vírus esperto...

Ps: em França morreram 1120 pessoas em lares e hospitais em 24 horas!

quinta-feira, abril 02, 2020

Covid-19 (dia 21 - 02/04) - sou o único que não se importa de ficar em casa?


- Mamã, quantos ó-ós faltam para voltar à rua?
- Podemos ir à rua passear.
- Não é isso, é para ir para a rua para estar com os amigos.

A mais nova cá de casa, quase a fazer cinco anos (que celebrará em confinamento), começou desta forma o dia e ao final da tarde passou 45 minutos em vídeo-chamada com uma amiga do pré-escolar.

Devo ser das poucas pessoas que não se chateia por não sair de casa. Aliás, talvez por ter de andar de casa em casa a entregar coisas (hoje a receber o frigorífico novo em casa do meu pai), o que me causa stresse é precisamente andar na rua. Mete máscara, tira máscara, passa gel desinfetatente, tira óculos, passa gel, mete máscara, etc, e por aí além...

Um papel para abrir a porta, as luvas que afinal de nada servem porque o ideal é lavar as mãos.

Os hospitais de Nova Iorque já só têm capacidade para mais 6 dias. Depois os ventiladores acabam e o Mayor já veio dizer que depois disso, quem precisar... morre.

Hoje, o português João Nascimento anunciou ter desenvolvido com uma equipa de voluntários, um ventilador que não custará mais de mil euros, e que vai distribuir os planos de forma livre, registando-os a favor da humanidade. Há esperança. Pelo menos há esperança nas pessoas...

 Cá por Portugal, os números na evolução da doença parecem bons. Mas há quem continue a adivinhar o fim do mundo (e por certo não são doidos varridos).

Amanhã lá terei de ir à compra semanal de frutas e legumes. Desta vez, vou experimentar novo modelo. Um saco para cada casa. Três ao todo. Afinal, as necessidades não são todas iguais. Nem os palatos...

PS: O estado de emergência foi prolongado em Portugal. E durante cinco dias, na Páscoa, não são sequer permitidas viagens (de carro ou a pé) entre concelhos. Ou seja, quem mora em Alfragide, em rigor, não pode ir ao hipermercado Auchan (que fica em Oeiras).

Covid 19 (dia 20 - 01/04) A loucura das compras

Hoje o dia começou a encomendar (finalmente) o frigorífico novo para o meu pai. O antigo pifou, foi-se, finou-se, deixou de existir, cansou-se de resfriar, etc (e aqui fica uma homenagem aos Monty Python e ao sketch do papagaio morto).

E acabou com a loucura de fazer compras para casa. Depois de horas à espera para entrar no site do Jumbo, a primeira data disponível era... 14 de abril! Alguém terá desistido pelo meio e ao finalizar havia a possibilidade de ir à loja levantar dia 7! (entregas em casa, esqueçam).

Agora quem não quer meter-se num hipermercado e voluntariar-se para ser dos primeiros infetados, dando assim heróico contributo para o famigerado objetivo da imunidade de grupo (70 a 80 por cento de infetados protegem os outros desde que desenvolvam imunidade), tem de gerir as datas das compras online como se estivesse a planear a compra de uma casa.

Posto isto, acabada a primeira compra, lá passámos mais uma bom pedaço do nosso dia no site do Pingo Doce a fazer nova encomenda - aqui com vantagem: entregam em casa. Mas só no dia 17...

Reparo, ao escrever o título do post, que para nós a loucura do Covid-19 começou há 20 dias. A doença neste momento já quase não me perturba (quase...), mas o que está à volta ainda me deixa desconcertado. Por exemplo: como é que Auchan, Continente, Pingo Doce, El Corte Inglés ainda não foram capazes de responder informaticamente (e humanamente) ao crescimento louco das compras online? Como é que Lidl, Aldi e outros não entraram ainda nisto?

E pelo meio vamos vendo particulares, pequenas empresas familiares, a correrem casas e mais casas, a venderem cabazes de legumes e fruta pelo triplo do preço...


quarta-feira, abril 01, 2020

Covid-19 (dia 19 - 31/03) - Uma entrevista

O dia de hoje foi marcado por uma bela entrevista telefónica que consegui. Por isso e por uma receita de bolo de banana que encontrei na internet e que permitiu gastar as quatro bananas que estraguei na semana passada e que ainda resistiam, transformando-as em dois bolos. Um para nós, outro, dividido em partes iguais, para os avôs.

Da entrevista, espero que saia uma manchete no jornal de quinta-feira. Ou pelo menos um bom destaque de primeira página. Do bolo, posso dizer que acabadinho de fazer sabia a pedaço de céu - mais pela textura, até, que pelo sabor.

Hoje comecei o dia tarde à beira de ataque cardíaco provocado pelo alarme escolhido pela minha mais que tudo (mesmo assustador). Sobrevivi a dois massacres e lá acordei pelas 10h.

Depois de um dia que correu bem com os miúdos de castigo sem PlayStation, conseguimos replicar o ambiente durante a manhã. Riram-se, brincaram, e tudo (me) pareceu mais sereno.

Houve desenvolvimentos do frigorífico (que levou ao drama de parte do fiambre armazenado ter sido deitado ao lixo) e uma decisão radical: meu pai desligou o bicharoco, deixou-o descongelar e amanhã logo se vê como está a coisa.

PS: O Jorge Buescu diz que Portugal vai ser uma tragédia e que uma onda gigante vai destruir o Sistena Nacional de Saúde e que vamos ter mortes em barda, como Itália e Espanha.

PS2: Outros dizem que Portugal está a ser exemplar e que vamos passar ao lado da crise; além de sermos apontados como país exemplar.

segunda-feira, março 30, 2020

Covid-19 (dia 18 - 30/03) - Moratória ao banco

Ora então cá estou eu. Do que me é dado a ver pelas estatísticas do Blogger ninguém sentiu a minha falta (peço desculpa aos 7 leitores que regularmente vou tendo - não é minha ideia desvalorizar-vos, antes gozar comigo), mas não pensem que a ausência se deveu ao facto de nada ter para dizer.

Não é que do ponto de vista pandémico tenha havido grandes histórias para contar - até parece, se os números não forem traiçoeiros, que Portugal está a querer fintar o destino latino - mas o ritmo dos dias continua louco.

É certo que já me livrei de quase todas as ansiedades. Por esta altura já não acho sempre que estou com o raio do Covid-19, e como raramente saio de casa (e quando saio não estou com quase ninguém e ainda levo máscaras e luvas) tenho reduzido drasticamente as probabilidades de vir a ser apanhado nesta fase inicial. Quanto mais se fica em casa, mais conforto se tem do ponto de vista mental (relativamente ao receio de contágio), e mesmo havendo quem se queixe desta prisão, a mim pouco me incomoda.

Não sou um animal social, não temos por cá o hábito (por falta de liquidez, chamemos-lhe assim) de fazer vida de restaurantes, ou grandes farras, e por essa razão acabamos por ter em casa o que vai sendo essencial (falta-nos apenas pai e sogro, e é tanto...)

Hoje apercebi-me de que passo a vida em sobressalto. E o mais chato é que nunca é por culpa minha. Vejamos: sábado fui levar a cada um dos avôs um magnífico robalo assado no forno (que eles adoraram): domingo comecei o dia a socorrer o meu pai, a quem o frigorífico tinha morrido, isto depois de ter de ir à Auchan levantar encomendas; hoje tinha de lá voltar para levantar as encomendas do meu pai, mas o que estava previsto para as 12h30 (e se encaixava no meu horário de trabalho) transformou-se numa maratona de espera porque os serviços se atrasaram e ninguém mandou o SMS a confirmar que a encomenda estava pronta...

E lá acabei eu a fechar páginas do jornal e a lutar contra o relógio para chegar ao ex-Jumbo antes das 21 horas.

Entretanto, o frigorífico voltou a funcionar e agora está naquele estado que ninguém sabe o que vai dar... Viverá? Sucumbirá? O tempo responderá. Mas se der asneira vai ser - estou certo - no dia em que eu tiver mais trabalho para fazer.

O meu afilhado fez ontem anos (27) e juntámo-nos todos para mais uma festa: parabéns cantados via plataforma Zoom (um vídeochat que dá para juntar dezenas de pessoas ao mesmo tempo). E hoje nova festa, de um colega de escola do nosso mais velho, Mais um a fazer 9 anos. E até a professora lá apareceu.

O resto do dia foi passado com eles a fazerem guerras de Nerf; com a mais nova a levar-me ao posto de trabalho os prints que iam saindo na sala, e com o mais velho a receber 700 emails do primo "F" a convidá-lo para video-chats na tal plataforma. Ao fim do dia, queixava-se o F de que não tinha podido jogar PlayStation, o que os levou a fazer um acordo: "vamos fazer uma promessa de primos: só falamos meia hora para não roubar tempo de jogo".

A mais nova anda a gastar a palavra mamã; chama-a para tudo e para nada. E anda teimosa. Hoje não jogaram PlayStation nem no telemóvel porque ontem se portaram mal (não dormiram quando se deitaram e prolongaram a festarola no quarto até depois da meia noite).

Enquanto escrevo, está a mãe a ir lá meter-lhes medo: que o pai está a ouvi-los e que se lá vai eles amanhã ficam mais uma vez de castigo...

É uma tática de terror, sim, mas é a estratégia possível para tentarmos ter um bocadinho os dois depois de eles se deitarem.

Voltou de lá a dizer: "não tive coragem, ela está com o livro na mão e a fingir que está a ler..." Neste momento estão calados...

Hoje, pela primeira vez, conseguimos fazer os dois um treino em frente à TV. Escolhemos Pilates se foi fixe.

Noutro campo: o meu banco abriu aos clientes a possibilidade pedirem uma moratória de 6 meses nos créditos habitação e automóvel. Foi além do que o Governo previu para o caso dos layoffs. Eu ando com a impressão de que mais cedo ou mais tarde os layoff vão disparar e não me admiro que nos toque cá em casa, face à quebra da venda de jornais. Se isso acontecer, chego lá já mais resguardado, na medida em que pedi a adesão à coisa. Na prática, durante 6 meses pagaremos apenas juros, ficando o restante capital para liquidar mais tarde. (não é mau negócio para os bancos, que acrescentam seis meses de juros aos empréstimos) e às famílias dá aqui um alívio imediato. E, convenhamos, deixar de pagar aos 80 anos ou aos 80 anos e 6 meses vai dar quase ao mesmo...

PS: Portugal vai nos 140 mortos e cerca de 6 mil infetados.

PS2: um dos momentos para recordar - o mais velho fez o que faz sempre depois de a mãe lhe dizer para não bater mais com a mão no sofá: bateu com a mão no sofá (quem diria?). E depois de lhe chamarmos a atenção, saiu-se com esta: «Eu não quero, mas depois de ouvir-te fiz mais uma vez. Sabes, toda a gente tem um lado negro no coração e eu também. E o lado negro é que me controla...», isto antes de se desmanchar em lágrimas...

sábado, março 28, 2020

Covid 19 (dia 15 - 27/03) Um prazer raro e os pais abandonados pelo Estado português

Ainda não foi desta que folguei. Ou melhor... mesmo estando de folga, lá me desloquei à TV para comentar a atualidade logo pela manhã. E que estranho é andar por uma Lisboa deserta, com lugares para estacionar em quantidade simpática, sem trânsito...

Foi rápido, mas tive de acordar cedo - muito cedo. Seja como for, o dia foi melhor porque estive mais tempo com os filhos e com a mulher.

Embora tenha também passado mais tempo na cozinha. O Pingo Doce finalmente entregou as compras e na encomenda vinham cinco belíssimos robalos frescos que tratei de cozinhar (três deles, os outros dois vão amanhã para pai e sogro da mesma forna) no forno, com um pouco de fiambre no meio.

(batatas cozidas antecipadamente, cama de cebola, vinho branco, tomate, peixe com sal e azeite por cima; cerca de 20 minutos no forno a 180 graus, para não secar)

E o prazer que nos deu a todos aquele peixe fresco, numa altura em que somos rodeados por carne descongelada a quase todas as refeições, ou douradinhos ou atum quando se tenta equilibrar as coisas para não se comer apenas carne.

Mais uma vez, passou-se um dia e voltei a não conseguir ver uma série, um filme, nada...

Até deitar os miúdos o tempo é todo deles; e o que não é deles é interrompido por eles. Hoje começaram as férias de Páscoa - que pesadelo será para todos. Eles em casa sem atividades diárias da escola; ele sem o e-mail diário da professora, que lhe dava razão para saltar da cama...

E este início de férias escolares coincide também com o dia em que o Governo de Portugal abandonou as famílias: afinal, mesmo sem ATLs ou escolas a funcionar, as faltas que um dos encarregados de educação der ao trabalho serão justificadas mas não remuneradas - como se alguma coisa tivesse mudado relativamente às semanas anteriores. No fundo o Estado diz: "fiquem em casa para não espalharem o novo coronavírus e, lembrem-se, protejam os avós de contágios"; mas depois diz também "cumpram o que dizemos, mas aguentem-se sem receber os salários durante estes 15 dias".

Os números dos casos positivos de Covid-19 (4268) está bastante abaixo do previsto (entre 5732 e 12852) e o número de mortos que temos é idêntico ao que Itália tinha a 3 de março, quando contabilizava apenas 2263 casos ativos.

Se por um lado há motivos para acreditar que podemos ir no bom caminho, por outro é preciso não esquecer que afrouxar as medidas permitirá novas vagas. E nem de propósito, hoje chegam notícias de que a China está de novo a fechar cinemas... (sem justificações).

Por outro lado, ser um oásis entre latinos alivia-nos, mas não resolve o problema global. Os EUA estão a disparar, já ultrapassaram a China... Depois há a dúvida do que acontecerá no Brasil, de onde - do que me apercebi até agora - não há ainda relatos de descontrolo.

Para cúmulo, um gato na Bélgica foi infetado (provavelmente pelos donos...), o que faz temer novos dados difíceis de decifrar.

Depois de deitar as crianças, disse-lhes de forma clara que precisava de tempo com a mãe, que estamos os dois cansados e que também temos de conversar, de ver filmes, ler livros...

Eles até cumpriram, mas a verdade é que entre telefonar ao pai (encomendar-lhe café na nespresso), arrumar a cozinha e escrever o diário o tempo vai-se todo. Já passa da meia-noite e amanhã é de novo dia de trabalho, precedido pelo ato de fazer o robalo assado para os avôs, a quem levarei também arroz doce que a neta fez... (e ela, com saudades a apertar, ainda desejou... "depois eu vou contigo levar-lhes o arroz doce...")

Fiquem bem. Fiquem em casa. Não façam como a malta que andou a reservar apartamentos no Algarve para férias de Páscoa (lá vai o vírus disparar no sul, onde nem há hospitais) e obrigou o governo a proibir viagens nesse período - estou para ver como...




quinta-feira, março 26, 2020

Covid 19 (dia 14 - 26/03) - Uma folga, uma espera e uma videochamada

Temos cá por casa uma imagem de Nossa Senhora, a "Mãe Peregrina" de Schoenstatt , que recebemos todos os meses a dia 15. Fica por cá 2 dias antes de seguir para outra casa.


Este mês, por força do Covid-19, ficou cá por casa e por cá ficará até esta crise passar e voltar a ser seguro andar de casa em casa para a entregar.

Às 20h00, estabeleceu-se, todas as famílias da corrente rezam ao mesmo tempo uma Avé Maria. Hoje o nosso mais velho fez a oração e foi tocante.

Algo como: "Ajuda-nos porque eu não consigo compreender muito bem isto e quero voltar a sair à rua e voltar à escola".

Já ontem tinha tido um meltdown porque em casa não conseguia aprender e dias antes dissera-me que estava arrependido de não ter aproveitado para sair mais nos anos que leva de vida (ele, o caseiro - agora quer sempre sair, nem que seja para ir ao lixo, a 40 metros da nossa porta).

O dia começou tarde, com sono prolongado e novo atraso nos trabalhos escolares. Acabei por não estar por cá. Tive de ir comprar fruta e legumes para três casas. E levei um pastel de nata ao meu sogro, para lhe dar um mimo - está sempre fechado em casa.

Porque o telemóvel dele é da idade da pedra, fiz uma videochamada por whatsapp (do meu, claro) para os netos e filha e ainda juntei o meu pai noutro ecrã. Parecia que lhe tinha saído a sorte grande. Na verdade, soube-nos a todos a um bocadinho dos sábados (embora eu estivesse de máscara na cara para o proteger).

Depois de almoço tinha de sair de novo, para receber a compra online feita no Pingo Doce - estranhamente não conseguiam entregar cá em casa e ia para o do meu pai. Aproveitei para levar-lhe os frescos, passei a comprar pão na Padaria Portuguesa (que agora vende laranjas, leite, latas de conserva, etc) e fiz-lhe também o mimo de levar um bolo (uma queijada). Ele andava com vontade, sobretudo depois de saber que a neta tinha feito (durante a tarde) um bolo, do qual já não deu para levar-lhe uma porção por estar no forno à hora a que saí de casa.

A verdade é que longa foi a espera. Tão longa que desesperou. Entrega prevista para as 17h30, e o tempo a passar. A passar. A passar. A passar. A passar (devagar).

Sem telefone para perguntar o que se passava, acabei no atendimento por messenger de Facebook (desgraçado de quem não tem facebook) e lá me disseram que o "shopper" haveria de ligar-me para falar. Lá me ligaram às 19h30 para reagendar a entrega. Ficou para amanhã, de manhã...

Dia em que, estando eu de folga, terei de ir trabalhar, para ir à televisão comentar atualidade logo pela manhã. A vontade de sair é escassa, mas, como recusar o que algum dos meus companheiros teria de fazer?

Dizem-me que posso dispensar a maquilhagem, que dão desinfectante, que limpam a mesa... Há de correr bem! Tem de correr bem.

PS: Hoje o Governo aprovou novas regras para layoff e ajudas às famílias que fiquem com rendimentos afetados, como por exemplo moratórias nos pagamentos dos créditos bancários (habitação incluído). O lado económico da pandemia vai ser outro pandemónio. Mas como noutos momentos da história, cá estaremos todos para ultrapassar.



Covid-19 (dia 13 - 25/5) Um golpe de sorte

Passou-se o dia e não vim cá escrever.

O trabalho correu bem, fechei cedo o jornal, e agora que passou algum tempo já nem me lembro bem de muita coisa.

Numa conversa de irmãos, o mais velho disse à mais nova que lhe dava mil euros se ela comesse tomates cereja. E ela respondeu-lhe: Para quê? O dinheiro agora não serve para nada. Está tudo fechado e o dinheiro só serve para comprar comida...

Mais mortes e a confirmação de uma empresa (próxima) a negar teletrabalho a uma funcionária admistrativa, alegando não ser seguro - como se o DL do estado de emergências lhes deixasse sequer essa possibilidade.

É pena que algums patrões não percebam que não estão só a tentar poupar dinheiro em tempo de crise. Estão também a comprar guerras que se quiserem combater perdem. E, pior que isso, estão a perder o mais importante: os trabalhadores.

O vírus lá vai avançando, embora pareça mais contido que noutros países. Por cá cresceu 28 por cento, mas são tão poucos os testes feitos que possivelmente terá crescido mais.

Talvez nunca saibamos a real dimensão da coisa.

De noite, e enquanto pensava onde comprar carne e fazia a lista dos frescos necessários para três casas, um golpe de sorte levou-me a fazer encomenda no Pingo Doce e a ter vaga já para hoje na entrega em casa!

quarta-feira, março 25, 2020

Covid-19 (dia 12 - 24/03) E o vinho, senhor?

Ontem acabei por não voltar aqui. Os dias em casa são incrivelmente mais cheios que os outros. Há sempre algo a acontecer. Uma criança que chora, outra que grita, uma que chora porque a outra grita e uma que grita porque a outra chora.

Pelo meio grita a mãe, grita o pai e grita até quem cá não está. Porque a vida na III Guerra Mundial  (quem esteve no Ultramar tem dito - o que me espanta - que isto é pior que a guerra, porque o inimigo não se vê) é mesmo agitada.

Adiante: ontem a saúde do meu pai estabilizou. Não voltou a ter febre - algo que continuou esta manhã - e outra coisa boa do dia é que aprendi a lidar com os meus ataques de hipocondria. Continuo a ter todos os sintomas do Covid-19 à vez, mas o meu cérebro já consegue gozar com ele próprio.

Hoje o mais velho fez uma reunião no Zoom com os colegas de escola e divertiram-se todos imenso. Foi emocionante ver como estavam felizes de voltarem a ver os rostos uns dos outros, como tentavam falar. Videochamada para 20 pessoas ao mesmo tempo é obra. E os adultos só se riam.

Veio mais um dia de trabalho e, mais uma vez, às 21h30 tinha a edição do jornal (a parte que me competia) fechada. Com este ritmo de vida acho que nunca me queixaria da falta de tempo para a família.

Pergunto-me que mundo teremos depois desta pandemia... E preocupa-me o mundo que temos durante esta pandemia. Já todos percebemos que a economia vai implodir, que vai ser uma tragédia, mas ainda hoje tive uma conversa mais acesa com um amigo que, sendo responsável por centenas de postos de trabalho, insiste em que os trabalhadores se desloquem à sede... Em alternativa deixou-lhes claro: ou metem férias ou vão para casa com licença sem vencimento.

Debati-me com tanta força que acabei a conversa (telefónica) a sentir que o meu coração ia explodir. Dizia-me ele: «eu sei que vão morrer milhares de pessoas [no mundo] mas nós aqui estamos a ter todos os cuidados higiénicos». Assusta-me. De morte. Sim, de morte. Porque é disso que falamos. De morte. Podemos ter todos os cuidados, mas não controlamos tudo. Não controlamos toda a gente.

A única forma de salvar vidas - assim fosse possível - era que todo o Mundo ao mesmo tempo se fechasse nas suas casas (para ser rigoroso, a única forma era mesmo que cada ser humano estivesse um mês sem contactar fisicamente com outro ser humano e nessa altura acabariam os contágios). Ora, se já deu para perceber que isso não acontecerá, então cabe a cada um fazer a sua parte e tentar travar a coisa. Tentar pelo menos não ser atingido, para não atingir os que lhe são próximos.

Neste momento sinto-me menos preocupado com a falta de produtos alimentares. As redes de distribuição parecem efectivamente não estar a falhar e até acabei o dia com uma boa e uma má notícia: a boa é que consegui fazer compras no Auchan online (para nós, meu pai e meu sogro); a má é que me esqueci de encomendar duas bag in a box de vinho tinto...

E com isto me despeço por hoje...

PS: Os Jogos Olímpicos foram hoje adiados. Tóquio-2020 só em 2021.

PS2: Itália continua a ver descer o número de mortes. E mesmo assim foram cerca de 700 em 24 horas

PS3: Por cá, chegámos 2363 infetados, mas como quase não se fazem testes já deu para perceber que o número há de ser muito superior.

segunda-feira, março 23, 2020

Covid-19 (dia 11 - 23/03) - (o post que ficou a meio)

Uma primeira nota a abrir este post... Ainda bem que as crianças têm 4 e 9 anos, que assim a dose de um almoço resolve-se facilmente (500 gramas de carne e estamos todos safos). Nem imagino o que será estar fechado com dois adolescentes esfaimados...

Por outro lado, isto leva a mudanças no  peso. Muita gente tem comido mais, cá por casa temos reduzido. E eu, por exemplo, caí na primeira semana de 78 para 76 kgs. Ando a obrigar-me a lanchar e a jantar melhor (confesso que também já estou a perder o medo de vir a faltar comida às crianças, e mais confiante no funcionamento das lojas), e já recuperei 300 gramas. Se ficar por este peso fico feliz.

O mais importante do dia, no entanto, é mesmo a saúde do meu pai. Já aprendi que isto é uma montanha russa. E de manhã estava sossegada. Dormiu sem febre, já está a tomar antibiótico e não tem tossido. Nem quero largar foguetes. A ver como corre o resto do dia.

Agora vou atirar-me ao trabalho e hei de cá voltar (tenho escrito quase sempre no fim do dia - este post de hoje vai sair a dois tempos e, quem sabe, até resultará melhor...)





Covid-19 (dia 10 - 22/03) Aquele telefonema...

Estou finalmente sentado ao computador (quer dizer, estou finalmente sentado ao computador não para trabalhar) e preparado para falar de mais um dia.

Ontem não saí de casa e creio que isso se refletiu numa total ausência de ansiedade (pela primeira vez) durante o dia. Hoje acordei tranquilo e depois de uma aula de ginástica (ou de dança) com os miúdos - para se manterem ativos - almoçámos em paz uma massa com cogumelos, azeitonas e bacon (além de um molho de tomate). Para fazer render a comida junto cogumelos, mas a mais nova, que não é parva, já me topou e reclama (guerra perdida por mim, simplificando).

Sentia-me tão bem que o verbalizei, a dado momento, em conversa com a minha mulher. Grande erro: se há coisa que devia ter aprendido nos 10 dias de reclusão é que na verdade estes 10 dias equivalem a 20 ou 30. E quase todos se dividiram entre o bom e o mau.

Pois o mau, hoje, chegou pelas 17h40, quando um telefonema do meu pai anunciou 38,2 graus de febre. Uma notícia destas, que há um ano seria recebida com um "temos de ver isso" transforma-se num pesadelo imediato. E aquela sensação de que o meu pai conhece um médico para cada ocasião - tantos aqueles que consulta por força dos seus problemas - desvanece-se em segundos.

A quem recorrer? Ao médico amigo que me disse anteriormente que isto não haveria de ser Covid-19. O tal que está na linha da frente a combater o raio do bicho. E que me responde hoje? "Liguem para a linha saúde 24. O ideal era ser testado, pois pelo que hoje me dizem pode bem ser Covid-19".

Há nesta ideia, quando se fala de alguém com 73 anos, um tom de fatalismo. Sabemos que a taxa de letalidade ronda os 15 por cento (o que dando confortável margem de 85 por cento é, ainda assim, insuportavelmente alta).

Foram duas horas e meia da minha mulher ao telefone com a linha Saúde 24, à espera de vez. Telefone na orelha até durante o jantar. No fim, lá falaram com o meu pai. E disseram-lhe para tomar ben-u-ron de 8 em 8 horas, tivesse ou não febre, e para chamar um médico a casa ou ir amanhã ao Centro de Saúde - para onde enviariam indicação de atendê-lo sem marcação...

Novo telefonema ao médico amigo e a declaração surpreendente: "portanto, foram inúteis!?".

"Não vai nada ao Centro de Saúde, que isso é ainda pior. Vão auscultá-lo, não fazem raios-x, ficam na dúvida do que é e ainda o mandam ao hospital. Nesta altura isso é totalmente desaconselhado".

Acreditava o médico que o meu pai seria direcionado para os drive-thru onde se faz com zaragatoa a recolha de amosta para análise. Nada disso, o que aliás bate certo com os números que vamos vendo diariamente (poucos testes) e contraria as indicações dadas aos médicos ("dizem-nos para testar, testar, testar"). O problema é que não dá para testar, testar testar. E nem as clínicas privadas ( que já cobram 200 euros por análise) o conseguem, pois faltam-lhes reagentes.

Acabei a noite a ir à farmácia levantar uma receita de dois tipos de antibiótico, ben-u-ron e mais um anti-histamínico e a ir levá-los a casa do meu pai, já sem lá entrar, deixando tudo à porta. Dei por mim a quase evitar olhar nos olhos (sem querer, naturalmente) quase com medo que só por pisar o andar do prédio pudesse contaminá-lo com algo.

Regressei a casa, desinfetei-me, tomei banho, mandei a roupa para incinerar (vá, foi só para lavar) e antes de telefonar ao progenitor, ainda tive de passar pelo quarto dos miúdos. O mais velho estava em pânico... "a mana não para de tossir. Ela está com o corona".

Tempo ainda para ser psicólogo. Lá lhe disse que era normal ele ter medo, expliquei-lhe que até eu já o senti, e que no dia a seguir estava tudo bem. Prometi-lhe que a irmã não tinha e ainda  lhe disse que para as crianças o coronavírus não era grave, que não morriam disso (aí abriu-se um sorriso no rosto dele) e ainda aproveitei para reforçar que essa é a razão pela qual temos de afastar-nos dos mais velhos.

PS: O Comité Olímpico Internacional já admite adiar os Jogos de Tóquio-2020; mas ainda pede 4 semanas para se pronunciar

PS2: De ontem para hoje, o número de infeções subiu "apenas" 25 por cento em Portugal. É muito, sim, mas dá esperança de que ao deixar de ser exponencial a coisa comece a travar.

PS3: Milhares de broncos foram passear juntinhos (e fazer jogging) na Póvoa de Varzim e na mata do Choupal...

PS4: Número oficial de hoje: 14 mortos em Portugal; e o Covid chegou a Moçambique...

sábado, março 21, 2020

Covid-19 (dia 9 - 21/03) - Crianças de sonho; e o coração nas mãos

No dia em que em Itália morreram 739 pessoas e Portugal chegou aos 1020 infetados, voltei a acordar com ansiedade.

Há uma tristeza que nos cala, que nos faz olhar para o prato quanto estamos a tomar o pequeno almoço, e que disfarçamos quando estamos junto das crianças.

E há momentos únicos que mais tarde serão recordados. Como aquele em que hoje a nossa filha mais nova pediu para fazer videochamada com uma amiga da escola e as duas, ali, do alto dos seus 4 anos, inventaram uma nova forma de jogar às escondidas: "fecha os olhos, que vou esconder-me".  E depois lá andavam os pais pela casa, de telemóvel em punho, a vasculhar os recantos até elas se verem e se rirem.

Bastou isto para, pouco depois, já dizerem: "vai por essa porta"; "não, para o escritório", etc. Confesso que poucas coisas me deixaram mais comovido que esta manifestação de criatividade e de amor...

Hoje não saí de casa. E a esta hora ainda nem banho tomei. Vou fazê-lo antes de me deitar, mas a meio do dia recebi um calafrio ao toque de telemóvel. O meu pai a informar-me, após dois dias de tosse, que estava com febre. 37,8. Pânico instalado... Queres ver que o bicho veio cá bater? E nós com tantos cuidados a toda a hora?

Falámos com médico e com enfermeira amigos, ele na linha na frente num hospital público, ela na retaguarda noutro que aguarda por casos... Ambos disseram que era preciso monitorizar, mas que os sintomas não parecem ser do malfadado Covid-19. As próximas horas vão ser de acompanhamento à distância, na esperança de que seja apenas um susto.

Dizia o médico: se tivesse esses sintomas há um ano nem preocupado estaria; e que do que lhe relatámos não parece ser o bicho...

Amém

sexta-feira, março 20, 2020

Covid-19 (dia 8- 20/03) - levantei a voz...

Oitavo dia em que tudo isto foi real. Comecei, após bem dormir e melhor acordar, satisfeito. A temperatura caíra de novo para os níveis normais. Está cá sempre, no entanto, uma sensação de pânico latente - e, percebi mais tarde, trabalhar ajuda mesmo a fintar a loucura...

Comecei praticamente o dia com SMS do Jumbo (diz que agora se chama Auchan) para ir levantar a encomenda feita há quase uma semana. Lá fui, tudo dentro da normalidade. Funcionária sem máscara e aparentemente sem medo (bom, eu estava de máscara e se tivesse algo ela estaria protegida também...

Regresso a casa para organizar todas as compras e cozinhar uma primeira leva de carne picada com massa, seguido de rota pela casa de pai e sogro (por esta ordem, para de casa do pai trazer alhos e cenouras em excesso e levar ao sogro).

De caminho, ainda me animei de descobrir que a padaria aqui do bairro está aberta e tem pão com fartura - levei para cada um deles dois pães de Mafra, que eles sem pão são como peixe sem água.


O dia começou com alguma rigidez. Ando a sentir que de cada vez que vou às compras aumento o risco de contágio - e até à rua começo a não ter vontade de ir; afinal, leio tanta coisa que é impossível não sentir receio. Depois, logo por azar, mete-se a informação que chega de Itália e Espanha e aquele estranho pressentimento de "dejá vu" latino... Que não seja nada.

E nesta sensação, acabei por exigir mais do meu pai. Tive de explicar-lhe que tem de ir avisando com tempo para o que falta em casa, para não me dizer um dia: acabou-se o pão; ou acabou-se o papel higiénico. Que é preciso ir monitorizando a gestão dos stocks. E acabei em tom ríspido a dizer: "tens de ajudar-me a ajudar-te". Fiquei a sentir-me mal, admito. Mas tem de ser... Temos mesmo de ter regras claras, como se isto fosse uma guerra.

Se a cada instante se torna mais evidente que todos temos mesmo de ficar sempre em casa, também percebo que continuamos a ser mandados como gado para o matadouro. Os patrões, que não têm como pagar salários face à quebra da produção, esperam que o Estado os assegure, mas o Estado vai sendo meiguinho e diz que todos estamos a portar-nos bem. Resultado, quem quer ficar em casa e fazer a sua parte na contenção do novo coronavírus depara-se com patrões que dizem ser impossível o teletrabalho. E que não se importam que eles vão para casa metendo férias ou com licença sem vencimento. Chantagem pura e ilegalidade. E quem vai controlar isto?

Adiante, o jornal fez-se todo a partir de casa pela primeira vez. Sem que alguém estivesse na redação. A primeira chamada do dia faço-a sempre, a cada pessoa, com video. Afinal, temos de ver-nos para não enlouquecermos. Não podemos ser apenas luzinhas a piscar nos whatsapp uns dos outros...

O fim do dia trouxe-me a recompensa que ansiava: nova videochamada com o meu pai, longa conversa e boa disposição. E alguma companhia, que bem precisamos todos disto...

quinta-feira, março 19, 2020

Covid-19 (dia 7 - 19/3) Dia do Pai

Mais um dia a madrugar...

Como ontem já tinha dito, hoje teria de atacar um supermercado pela manhã. Afinal, o leite de aveia é fundamental cá por casa (pois não se bebe o de vaca) e estava mesmo a acabar (um pacote).

A decisão nunca é facil. Ir ou não ir? A este ou a outro? A que horas?

Segui o conselho de uma amiga e repeti a experiência dela na véspera: Às 7h30 lá estava eu à porta de um super dos mais pequenos - e que abrem mais cedo.

Sair à rua é como ir para Chernobyl. Uma roleta russa: comprar comida a que preço? Arriscando infeção? No caminho, carros e mais carros. Na rua, no centro de Lisboa, gente e mais gente. Em estação de comboio central mais movimento do que me parece aceitável.

Fico com a ideia de que há patrões a insistir na manutenção da atividade, talvez achando que isto do Covid-19 é uma histeria coletiva.

Dentro da loja, funcionários sem máscaras, sem luvas, numa aparente normalidade. Pergunto-me se não lhes passa pela cabeça o risco? Ou se passa, mas estão tão ameaçados que não podem sequer proteger-se...

Compras feitas, vim para casa, arrumei tudo. Eram 8h30 quando cheguei. Atirei-me para dentro da banheira, como se quisesse completar um processo de descontaminação. Ninguém escreve sobre isto, mas as máscaras boas (tenho dessas, embora poucas) são praticamente incompatíveis com óculos - embaciam-nos e além disso eles não encaixam bem no nariz, que está também tapado por um molde metálico da máscara. Conclusão: só se pode meter a máscara quando já não se precisa dos óculos para conduzir. Ou seja, lá se está a potenciar a contaminação da dita.

Entretanto, segui para o segundo pequeno almoço. Tinha comido apenas um iogurte de aromas às 7h10 e apetecia-me provar a baguete francesa. Cheguei da rua bastante confortável - talvez por ter resolvido um problema premente. Mas, lá está, consciente de que cada ida a uma loja é uma roleta russa: há uma bala (ou mais) bala no carregador da pistola e temos de apontá-la à cabeça e disparar. Isso ou não ter comida para os filhos...

E no entanto cheguei animado. Era dia do pai e logo tive uma surpresa que me emocionou: o mais velho fez um postal e escreveu por ele e pela irmã. "Querido pai. Eu gosto muito quando me abraças"; já ela "Querido pai, eu amo-te muito". E o presente mais simples, a que se juntou a leitura de quadras, quase me arrancou lágrimas de felicidade e comoção. O amor é isto.

Por ser dia do pai, a minha querida mulher foi visitar o dela (rapidamente, como se aconselha e com distanciamento) e levou-lhe um pedaço do arroz doce que ontem a mais nova cozinhou comigo. Decidimos fazer assim a nossa partilha pelas três casas no dia do pai.

Enquanto ela não voltou senti sempre que a tinha mandado para a guerra. É uma incerteza incrível, esta que se vive.

Depois fui eu a casa do meu, também visita de médico, e nova constatação de que passaremos a vida a jogar roleta russa. "Preciso de pão", diz-me ele. E eu não levava máscara, porque ia só lá a casa e não estaria com mais ninguém (temos de doseá-las). Lá concordámos que ele iria à churrascaria que fica mesmo em baixo de casa dele, que lá havia pão. Mas que iria de luvas e máscara. E saí de lá a pensar que estava a colocá-lo em situação de risco, logo depois de lhe dizer a toda a hora que não pode sair.

O pior estava para vir: durante a tarde, novo ataque de pânico e pela primeira preocupação séria. Estaria com febre? Termómetro na axila e 37 - eu que costumo ter sempre 36. Parecia estar a subir e entrei em crash. Fui aspirar boa parte da casa e parei a dada altura para medir a febre. 37,2. E uma sensação terrível de calor, corpo a ferver (bem mais que os 37,2 assinalados).

Fiquei a descansar na cama, após falar com uma prima enfermeira. Disse-me ela para não entrar em pânico, mas para ir monitorizando. Por lá fiquei no quarto. Afinal, tinha dormido pouco nas duas últimas noites e o corpo há de dar sinais.

Ouvi a conferência de imprensa do primeiro ministro e fiquei a pensar que o estado de emergência não deu ainda origem a decisões que alterem substancialmente o que quer que seja. Sentindo eu que é fundamental mesmo que só trabalhadores de saúde e os das áreas de primeira necessidade andem na rua, preocupa-me que qualquer patrão de um qualquer escritório de advocacia, ou outra área de atividade, possa continuar a obrigar os funcionários a apresentarem-se diariamente, provavelmente sem sequer lhes fornecer máscaras, luvas, etc. (Creio que esses, mesmo que muito assustados, no final deste processo terão as mãos tingidas de vermelho sangue...).

Ouvi-lo assustou-me, então. Não pelo que disse, provavelmente, mas porque vai-se tornando cada vez mais evidente que os tempos vão ser difíceis. E porque ao mesmo tempo temia estar com febre - que é um dos sintomas do Covid-19)

Do mal o menos. Medi a febre à saída do quarto e tinha regressado aos 37, em vez de subir.

Hora de preparar o jantar e com ele, finalmente, comermos por cá o arroz doce. Na esperança de uma noite de normalidade e que o corpo responda bem e que tudo não tenha passado de um susto gigante.


PS: Os filhos fizeram-me uma gravata de papel para dia do pai e a mais nova arrancou-nos gargalhadas quando ao telefone com o avô lhe explicou que tinham oferecido um postal e uma barata.

quarta-feira, março 18, 2020

Covid-19 (dia 6 - 18/3) - um começo doloroso

Despertador para as 7.30. O dia começa como se estivéssemos em guerra.

Faltam legumes para a sopa e fruta e a hora melhor para ir às compras é o arranque do dia. Máscara, luvas. Quatro pessoas de cada vez na frutaria. Espero pouco. Faço as compras para três casas e saio.

Chego a casa e divido tudo por três sacos. Acabo, aspiro o chão e ainda penso na conferência de imprensa que vinha a ouvir no carro: os estímulos de 3 mil milhões de euros à economia. 

Sinto-me atropelado por um camião. Emocionalmente, nem tanto fisicamente. 

Dias assim transportam-me para o cenário de um filme de ficção científica.

Para piorar, estou desde ontem com um siso a querer doer. Não sei o que fazer. Espero que passe... E isto aumenta o pânico. 

Vamos todos ficar bem, penso no arco íris que a minha filha desenhou.

Que fiquemos, sim!

Penso só em proteger a família e a pensar nos miúdos tiro a máscara ao entrar em casa, de modo a não assustar. De seguida penso que se calhar deveriam ver e tomar contacto com a realidade...

A primeira metade do dia foi uma violência. Senti-me perdido e exausto. Contive as lágrimas de desespero mais de uma vez. Sobretudo à porta de casa do meu pai, onde fui levar os legumes e frutas necessárias. Lá fiquei, lá conversámos. Saí a pensar que devia tentar ir a um dentista, mas rumei a casa do sogro, também para levar os frescos.

Voltei a casa, lavei-me de alto a baixo e lá começou novo dia. Sim, que cada dia tem vários dias num só - já repararam que o que aconteceu há uma semana parece ter sido há duas ou três?

Regressado a casa, ao ninho, onde tudo é mais seguro, lá acalmei. Ainda desaninado, apercebi-me da burrice de não ter esvaziado os hipermercados todos de Portugal para a nossa despensa. Faltavam guardanapos, papas, leite e mais umas quantas coisas, todas necessárias para os míudos - se fosse só por nós, adultos, até sobreviviamos a comer arroz de salsicha todos os dias...

Tentei de novo o Auchan online, para me deparar com uma fila de 12 horas para poder fazer encomendas online - isto enquanto lia experiencias de quem tinha aguardado e, concluída a compra, esbarrava na falta de "slots" para entrega ao domicilio ou em loja.

Tentei o Continente online e não havia produtos disponíveis; o Pingo Doce foi uma maravilha - deixou escolher tudo sem problemas e quando chegou ao fim não tinha datas para entrega...

Acabei por decidir-me por acordar de madrugada e ir para a porta de um super mais pequeno amanhã...

O dia chegou ao fim (ou o terceiro dia dentro deste dia) e dei por mim a olhar para o lado, já deitado, e a dizer à minha mulher: "hoje o dia foi bom, não foi?"

Não sei se o segredo para esta conclusão foi a festa de pijama que fizemos com os miudos, ou se - simplificando - é mesmo estarmos todos juntos. Para mim faz toda a diferença..



Covid-19 (dia 5 - 17/03) - Um dia bom

Portugal passou os 400 casos de Covid-19, quem quer fazer compras de supermercado online tem de ficar numa fila de espera virtual (para depois não haver metade do que quer comprar), amanhã (diz-nos ao fim da noite de hoje o Jornal de Negócios) Marcelo Rebelo de Sousa vai decretar o estado de emergência e obrigar-nos a todos a ficar em casa e isso, sabemos lá nós como, é capaz de dar um bocadinho cabo das nossas vida profissionais e até financeiras.

E, no entanto, ao fim do quinto dia de isolamento social (auto imposto), dei por mim a vir até à sala e, enquanto tomava um chá, olhar para a minha mulher e dizer: hoje foi um dia bom, não foi?

Sim, houve gritos da criançada - como há sempre - algumas zangas, a palavra mamã e a palavra papá gastas de tanto serem usadas, correria para a frente e para trás, alguma pressão dos infantis que pela primeira vez se queixaram de (e usaram a palavra) tédio. Houve também notícias de o mundo se ir fechando cada vez mais; de o Euro-2020 de futebol passar a Euro-2021; de que o COI mantém as datas para os Jogos Olímpicos; de que na China terá havido anúncio de resultados animadores na pesquisa por uma vacina contra o bicharoco.

Houve também o desespero do meu pai porque o fiambre tinha acabado! O fiambre acabou!!! E então toca de ir à merceria da rua sem máscara na cara, embora de luvas. E houve o milagre da multiplicação de todo o fiambre que estava abandonado no frigorífico cá de casa e saltou para a do meu pai. E houve a ida à Padaria Portuguesa comprar o pão que por cá faltava desde que levei todo o que tínhamos para os avôs; e o empregado que agradeceu muito o facto de eu pagar com multi banco até porque nos ultimos dias estava a ficar com a pele avermelhada e assim não havia contacto físico...

E foi um dia bom. Curioso. Um dia bom porque consegui resolver um dos maiores problemas: a falta de fiambre (vá, a sério, digo-o mesmo com carinho e a compreensão de que não é fácil estar sozinho em casa tantos dias e sentir que faltam coisas básicas). E porque pela manhã vi os putos a rirem à gargalhada enquanto faziam uma aula de ginástica. E porque na simplicidade desta nova vida todos nos deliciámos com uma simples massa com molho de tomate, fiambre! (FIAMBRE!) e azeitonas - havia cogumelos, mas não posso dizer porque o meu filho, que não gosta, comeu-o sem se aperceber, ao contrário da irmã que não se queixou mas deixou todos no prato). E porque guardo o abraço que ela me deu ao fim da noite quando nos cruzámos no corredor e ela disparou um "adoro-te papá". E porque guardo o olhar dele, sereno, a pedir-me para ouvir música nos fones e a esforçar-se a cada dia para começar a respeitar os pedidos à primeira. E porque fiz os trabalhos de casa com o mais velho - chegam por email todos os dias; e porque tanto ele como ela fizeram duas videoconferências com dois amigos.

E foi um dia bom porque pela primeira vez não senti a ansiedade no peito (e porque o meu novo vício de medir a febre me continua sempre a dar 36,5 graus.

Bom e felicidade são mesmo conceitos relativos...

Ficam bem e fiquem em casa

terça-feira, março 17, 2020

Covid-19 (dia 4 - 16/03) - Pokemon Go

Morreu o primeiro português vítima de Covid-19. E os portugueses perceberam que a estatística é assustadora: que lá para o fim de março possivelmente haverá 50 mil infetados (que isto dobra a cada dois dias - e hoje há 331 casos).

Não passou muito tempo e de repente tudo o que escrevi acima deixou de provocar-me arrepios. Calma, não sou um monstro nem fico insensível a nada disto. Tão pouco estou menos preocupado que ontem. Hoje pela primeira vez não senti à vez todos os sintomas.Nem isso nem ataques de ansiedade.

Vá lá que já só faltam prái 150 dias para nos livrarmos disto!

Este dia trouxe mais novidades. Antes de mais, fizemos uma aula de ginástica em casa. A família toda, via Youtube. Depois começaram as novidades: da escola chegaram trabalhos para os miudos. Ela pintou um arco-iris e a frase "Vamos ficar todos bem"; ele fez contas, viu vídeos de estudo do meio na plataforma Escola Virtual e adorou. Queria responder a mais testes, ver mais vídeos... Provavelmente andava a sentir falta...

Mais tarde, ao telefone com um dos avôs, lá deixou finalmente sair um pouco do que não nos diz: "Eu não quero perder os avôs". Afinal, mesmo sem verbalizar, estará a sentir algo.

Imagino que seja marcante ver os pais agarrados ao telefone/tablet a ler tudo o que vai saindo (e eu sem tempo para acompanharo que desejo), que oiçam conversas aqui e ali...

 Outra novidade (talvez uma das melhores, a par da aula de ginástica) foi o passei pós-almoço. Com o meu telemóvel na mão e o Pokemon Go instalado, lá andamos pelas redondeza a colecionar bicharocos virtuais, no que foi uma animação para o mais velho...

De resto, a mercearia aqui da rua implementou a regra de só deixar entrar seis pessoas de cada vez. Tive de lá ir, fiz as minhas compras (ia só buscar guardanapos, que estavam a acabar, mas após esperar meia hora para entrar, aproveitei para trazer mais meia dúzia de coisas - entre as quais Twix e Maltesers) e dei por mim a constatar como será diferente a nova normalidade... E (ainda) não há racionamento de bens...


Desculpem alguma quebra narrativa, mas além de cansado do dia, começo a sentir-me canso deste pandemónio da pandemia.

PS: queria dizer-vos e esqueci-me: é fundamental que em casa falemos do que sentimos com as nossas mulheres/maridos. Isto é um momento com que ninguém sabe lidar e é importante que nos compreendamos a cada momento, sem mal entendidos.


segunda-feira, março 16, 2020

Covid-19 (dia 3 - 15/03) - Arroz de feijão e ruído crescente

Confesso, eu que sou asmático e tenho um pai que faz Bingo na lista das comorbilidades associadas ao Covid-19, todos os dias acordo numa espécie de sobressalto.

A primeira coisa que o meu cérebro faz é uma verificação ao hardware: dói a garganta? consegues respirar? tens dores musculares? fraqueza generalizada? tosse?

Naqueles três segundos, estou em suspenso. Acho que estamos todos em suspenso. Não três segundos, mas há uns dias. E por mais uns quantos.

Todos temos opiniões fortes sobre se deve ser decretado estado de emergência, todos sabemos muito bem as implicações de se fechar as fronteiras terrestes com Espanha e todos temos opinião sobre o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa por webcam manhosa ao país.

Hoje o dia foi difícil. Foi só o terceiro em casa, mas os miúdos estiveram mais agitados (ou então nós com menos paciência). E o tom de voz vai subindo mais vezes do que gostaríamos.

À noite, o mais velho teve insónia e só há pouco (já depois de acabar de ler o Diário de um Banana, segundo volume) conseguiu adormecer. Falei com ele, perguntei se sentia alguma preocupação com o corona, alguma tristeza com o estar em casa e respondeu-me que não: «a probabilidade de o corona matar uma criança é inferior a 1 por cento», justificou (já não me lembro desses tempos, mas é reconfortante passar ao lado desta preocupação de adultos).

Quero - acho que queremos todos - sair desta espiral depressiva a que viemos parar. Preocupados por nós, pelos nossos familiares, pela economia, etc... Então decidi começar o dia a levar sorrisos ao meu pai e meu sogro.

Cozinhei dois pianos de entrecosto no forno (com molho barbeque), um arroz de feijão e meti em tupperwares. Toquei-lhes às campaínhas sem pré-aviso e além de lhes lembrar que não estão sozinhos, de lhes levar um pitéu (um mimo), ainda fiz videochamadas para verem os netos. Houve sorrisos em barda. E, confesso, senti-me um pouco mais leve.

Mas, dizia, não foi fácil. Mesmo tendo previsto que o número de casos positivos seria hoje mais alto que os 245 anunciados, sabemos todos - e é cada vez mais evidente - que se o pico de contágio vai ser em meados de maio, então ainda nos falta longo caminho.

Ainda não o digerimos e dou por mim a trocar aqueles olhares com a minha mulher nos quais não é preciso (ou possível, até, porque estamos sempre acompanhados) dizer uma única palavra.

Há tristeza, apreensão (sobretudo) e ainda que confiantes, temos os nossos momentos de quebra. Planeei que hoje poderíamos tentar ver um filme e ter alguma normalidade - mas não deu.

Amanhã vamos ter de introduzir novidades: logo para começar, de manhã teremos de fazer exercício físico em família. Não é possível passarmos 30 dias, ou mais, em casa, sem nos mexermos; sem os miudos gastarem energia. Nem saudável. Já baixei um quilo para os 78 (raramente tenho apetite - quando era gordo numa situação destas passaria o dia a comer) e não podemos permitir que a massa muscular se vá.

Há no Youtube milhares de vídeos de treinos que podem ser realizados em casa, só utilizando cadeiras ou o o chão - exercícios para toda a família.

E há em Portugal soluções com o a do meu amigo Pedro Almeida (treino em casa) que além de fazer planos personalizados, ainda está a disponibilizar gratuitamente um programa novo para cada dia.


Amanhã isto vai ser melhor. Tem de ser... Fiquem todos bem! (e fiquem em casa)