sábado, setembro 12, 2015

Os filhos e o futebol

Foi uma decisão tomada em conjunto e que me parece sensata: em momento algum diríamos aos nossos filhos para serem do clube A ou B. A coisa é tanto mais importante quanto que eu e ela eramos (e continuamos a ser) apoiantes de clubes diferentes.

Ora, o facto de eu ser do Belenenses e ela do Benfica gerou alguns dissabores durante a noite, sobretudo porque os nossos clubes se defrontaram (não foi bem assim, que o meu não compareceu ao jogo e mandou apenas uns rapazes com a camisola vestida e acabou a levar 6-0) e eu, imbuído pelo espírito que nos últimos tempos me levou a ir até aos estádios para o miúdo ver futebol ao vivo  - e para fazer coisas com ele - levei-o. Antes tinha-o levado ao Belenenses-Rio Ave, ao Belenenses-Altach e ao Portugal-França. Como também viu um treino da Seleção no Estoril, ficava com o pleno dos estádios de I Liga em Lisboa.

Posto isto, percebi hoje que para os dois é importante que o nosso filho seja adepto do nosso clube. Ou melhor, percebi que para ela era importante que o nosso filho fosse do Benfica, porque já antes eu sabia como o queria azul.

Facto: o nosso filho há já bastante tempo diz ser do Belenenses. Teve ali um período em que se assumiu benfiquista, mas pouco depois voltou a ser belenense. Estou convencido que tal tem a ver com o facto de eu - pai - ser do Belenenses. E sê-lo com firmeza. No período em que ele me disse ser benfiquista, eu nunca lhe disse algo como "não devias", ou "volta a ser do Belenenses" ou "o Belenenses é melhor que o Benfica" ou até "o Belenenses ganha sempre ao Benfica". Não o fiz porque intimamente assumi o compromisso de o deixar ser do que ele quiser - e até quero que sendo ele Belém goste de futebol sem fanatismos. Sempre que ele me disse: "sou do Benfica, tu também podes ser, pai?" ou "sou do Benfica e tu também gostas do Benfica, não é, pai?" limitei-me a responder: não! Eu sou do Belenenses, só do Belenenses.

Não lhe menti. Eu sou, efectivamente, só do Belenenses. E sou-o com firmeza, sem fanatismos ou cegueiras. Da mesma forma que lho disse, acrescentei sempre: eu sou do Belenenses e a tua mãe é do Benfica. E o meu pai é do Belenenses e o pai dela do Benfica.

Sempre lhe pus, então, as cartas na mesa. Ele sabia - sempre soube - perfeitamente onde se movimentava. E a verdade é que com o passar do tempo passou a dizer-se unicamente do Belenenses, ainda que vá dizendo "o Benfica é amigo do Belenenses", algo que, presumo, lhe terá sido dito por alguém ou então que ele tenha construído de modo a não ter, na sua cabeça, pai e mãe em facções opostas. Adiante...

Ora, o problema que se coloca é que ontem, durante o jogo, fui trocando sms com a mãe dele, a relatar-lhe o que o filho ia dizendo no Estádio da Luz. Comecei por contar como ele sorriu, extasiado, com o voo da águia; depois como chorou "baba e ranho" no primeiro golo do Benfica, logo aos 5 minutos, e como peguei nele ao colo e o consolei, dizendo-lhe que faltava muito tempo, que o jogo estava longe de acabar e que quando se sofre um golo se deve ir à luta e tentar marcar dois, que não se desiste, e que não é preciso chorar. Contei depois que voltou a chorar no 2-0, que ele me disse que o Belém ia perder. E contei que, sabendo eu que ele gosta do Jonas, lhe disse que o Jonas tinha marcado, o que o levou a celebrar. Contei também que ele, aí, me disse: O Belém ainda pode marcar quatro, ou doze. Contei a seguir que ao 3-0 ele me disse que queria ir para casa, porque havia muito barulho, mas que o tinha acalmado com queijadas de Sintra. Ao 4-0, ele desabafou comigo "o estádio do Benfica é um horror, só o Benfica marca golos", ao 5-0 mandei uma fotografia dele a chorar e ao 6-0 apenas que nos íamos embora (ele chorava desesperado e dizia: "o Belenenses está descontrolado") e que quando chegámos cá fora fizemos uma corrida e ele se desmanchou a rir.

Ao chegar a casa, a tensão continuava no ar. E a minha mulher acabou por assumir que gostaria que o filho simpatizasse com o Benfica - parece-me natural - e que eu a forçava a ser imparcial enquanto eu próprio não era. Parem lá as rotativas!!! Isto requer reflexão...

Pus-me então a pensar na coisa e até fiquei a achar que um pai tem todo o direito de tentar que o filho seja do seu clube. Infelizmente, muitas vezes na vida, pai e filho (rapaz) ficam com pouco para conversar e o clube une-os. A rotina de irem ao futebol substitui as conversas que por vezes não conseguem ter. A coisa funciona numa base de "a mãe é a minha melhor amiga", mas contigo vou ao futebol. Nunca é ao contrário... (e claro que este "nunca" é hiperbolizado, pois há casos assim, ainda que menos que o inverso). Talvez haja algo na masculinidade que sai ferido quando o filho é de outro clube - talvez seja o medo de no futuro não ter o que falar com ele... (e no entanto não tento, eu, manipular)

Perdoem-me a extensão deste post, mas depois de pensar tudo isto concluí duas coisas: primeiro que um pai (e uma mãe) não deve(m) de facto tentar fazer de um filho adepto do seu clube (por mais que o desejem e por mais que possam); a segunda - e porque refleti com honestidade sobre o assunto - que acredito nunca ter feito algo deliberadamente para o miúdo ser do Belenenses.

As únicas coisas que fiz foram, quando ele se assumiu belenense, levá-lo ao futebol e comprar-lhe uma camisola. Sentindo-o belenense, faria sentido continuar a agir com imparcialidade, como se ele fosse um indigente mental incapaz de decidir para que lado lhe cai o coração?

Confesso que antes de ir para o Estádio da Luz cheguei a desabafar: se isto corre mal e levamos 4-0 o miúdo vira benfiquista (tomara eu que tivessem sido só quatro, acrescento agora), mas o que ali vi foi uma criança que sem influência minha ou do avô genuinamente sofreu pela derrota do Belenenses, que genuinamente só queria ver o Belenenses ganhar: o meu filho não só não se rendeu à maioria espetacular de benfiquistas, ainda por cima a celebrarem seis golos, como chorou como eu nunca chorei, em derrotas do Belenenses. Mostrou, verdadeiramente, que é um belenense. Sorriu e gritou o nome do Jonas quando eu lhe disse que o Jonas tinha marcado dois golos (por qualquer razão o miúdo idolatra o Jonas). E, perante isto, que direito teria eu de não o apoiar na escolha?

No fim do jogo - ou melhor, quando saímos ao 6-0 - agarrei nele e disse: ouve bem o que vou dizer-te. Nós não desistimos facilmente! Quando se perde um jogo, diz-se: viva o Belém e para a próxima tenta-se fazer melhor. E segurei-o com firmeza, como se isso permitisse tornar eterno e especial aquele momento.

A caminho do carro, fui falando com ele, fui-lhe dizendo que ficámos tristes, mas que houve coisas boas, como  a mãe e o avô materno terem ficado felizes. Já no carro, continuei a tentar fazer pedagogia e reforcei a mensagem. Disse-lhe que nenhuma equipa do Mundo ganha os jogos todos, disse-lhe que perdendo ou ganhando as pessoas se mantém fortes e tentam melhorar, e que não devemos ter vergonha, disse-lhe que os jogos de futebol são apenas jogos de futebol e que o que importava é que nós homens tinhamos passado uma noite em família, jantado, ido ao futebol e divertido.

A verdade é que fiquei a roer as unhas e a torcer para ele não virar agora benfiquista...

Sem comentários: